Júlio Silva prostitui cinema com o seu novo filme Correntes da Zambézia

Correntes na Zambézia é o novo filme de Júlio Silva. Conta a história de 2 portugueses que no ano de 1888, após a aprovação da Lei Eusébio, que proibia o comércio de escravos, decidem viajar a Moçambique, Zambézia, para tráfico de escravos.
Do ponto de vista de conteúdo vale por ilustrar a ideia de que o negócio de escravos enriquecia a brancos, e negros africanos.
Cinematograficamente foi feito com muita inocência. A massa de estória não está organizada em narrativa. Flávio Campos (2007), escreve que – É à massa de estória a que você se refere quando diz “Tenho uma estória para contar, mas não sei por onde começar”.

E acrescenta, Aqui você está a experimentar os prazeres e as dores de organizar numa forma narrativa a massa de estória. Os actores fazem de contas que vivem as personagens. A imagem não tem padrão, alguns planos apresentam acções afectadas pela descontinuidade espacial (é o caso dos portugueses viajando no barco. Eles foram filmados no estúdio simulando a viagem, mas o barco é real). A direção de arte prejudica a verosimilhança (não é crível que em 1888 as mulheres usassem já mexas na cabeça como muitas personagens femininas usam no filme, como também não é crível que os edifícios usassem grades e blocos com o actual designe).

O rol dos pontapés na técnica continua e é grande. Para só falarmos de mais 2, reparemos agora na cena que decorre a partir do minuto 13:12 a 14:20 em que duas personagens discutem sobre a presença de um homem mulato como intermediário no negócio de escravos. A cena é feita de 8 planos, onde na sua variação o eixo da câmera ou a regra dos 180° é violada sem justificação técnica ou narrativa. “… a câmera deve ser posicionada apenas em um dos lados da linha imaginária criada pela direção do olhar ou movimento dos personagens conforme estabelecido em planos mais amplos (Mercado,2011). E acrescenta, Se a regra não for obedecida e a linha for cruzada os planos resultantes não serão montados adequadamente, uma vez que os temas não parecerão estar a olhar para a direção certa” (p.12).

Por último, o racord no cinema é das coisas básicas que um realizador deve saber e dominar para, segundo Aumont e Marie (2003), preservar a continuidade espacial (o caso dos racords no eixo), a continuidade plástica (o caso dos movimentos), a continuidade gestual (racords de gestos) e o racord de olhar (vidente/visto, campo/contracampo). Os autores explicam ainda que o racord é a simbolização da percepção da continuidade do mundo físico, contínuo espacialmente, com lateralidade esquerda/direita, centralização psicológica, e reversibilidade da relação de visão (p.251). No entanto, o realizador não tem conhecimento deste pormenor técnico básico. Várias cenas tem problemas de racord.

Como exemplo vamos referirmo-nos à cena que se passa entre 50:29″ a 51:24″ onde um homem foge de um grupo de 4 mulheres correndo da esquerda para a direita, mas no plano a seguir aparece a correr da direita para a esquerda, fazendo acreditar que está correndo ao encontro das mulheres que o perseguem, criando problemas de compreensão da acção para o espectador.
Enfim, cinematograficamente, Correntes na Zambézia é um não-filme. Com certeza um simples áudio-visual de nível caseiro.

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