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Resgate, Um Filme Para Ver e Rever!

O filme emerge a partir de duas linhas narrativas. A primeira é a que segue as peripécias de um jovem caminhando por picadas e atalhos. Percebemos depois que ele está saindo de uma penitenciária onde cumprira uma pena. Quando chega a casa, uma mulher, Mia, exclama abraçando-lhe, e ficamos a saber que ele é casado, com uma filha de cerca de 1 ano, e chama-se Bruno. A segunda linha narrativa é contada por cenas rápidas e aparentemente isoladas umas das outras sobre o mundo do crime: Um homem, numa ruina abandonada, mata a tiro de pistola uma vítima que lhe suplica perdão e seu comparsa espalha sobre o corpo da vítima combustível e o queima; um outro homem cobra uma dívida a uma mulher na via pública e arranca-lhe a viatura. No curso das imagens e sons, montados de forma paralela com as do Bruno, as duas linhas narrativas se fundem numa única que se sustenta na mensagem chave de que o crime não compensa.

Resumindo o filme. Bruno, interpretado por Gil Alexandre, tem um passado criminoso que o levara à prisão por quatro anos. Agora quer recomeçar a vida de forma honesta ao lado da Mia, interpretada por Arlete Bombe, e a filha. No entanto o passado persegue-lhe. A casa onde vive está penhorada a um banco onde sua falecida mãe fora fazer um empréstimo para tentar salvar sua vida de um cancro, seu emprego precário não ajuda muito, e a pressão social dos antigos colegas do crime está constantemente presente. Bruno não resiste, as circunstâncias impelem-no para o mundo que quer tanto abandonar: o do crime.

Em Resgate, a moeda em circulação é o dólar. Pode causar algum desconforto para o moçambicano que tanto desejaria ver o Metical como símbolo identitário nacional a ser usado no filme. No entanto, para o realizador, Mickey Fonseca, na sua narrativa o dólar não é apenas uma moeda. Tem para ele uma utilidade poética. Se na poesia de José Craveirinha a magreza simboliza a pobreza, para Mickey Fonseca o dólar é um símbolo do crime. Duas cenas são relevantes para captarmos esta percepção: numa cena entre Bruno e a Mia, esta oferece ao marido uma nota (minuto 07:50). Não é uma nota de dólar. Não é dólar porque Mia é uma mulher batalhadora, humilde, defende a justiça. É interessante que em todas as cenas que a Mia olha para o dólar, olha-o com desprezo. A segunda cena envolve Bruno e uma vendedeira de frutas. Bruno oferece-lhe uma nota de 100 dólares aliciando-a para deixar a porta aberta da casa na qual iriam entrar para raptar o pai do Mussa (minuto 01:06:05). Na cena com a vendedeira Bruno diz a ela que aquela nota é de 100 dólares. “Vale 6.000”. Interessante notar que Bruno não diz que 100 dólares valem 6.000 Meticais. Diz penas que valem 6.000. É que para Mickey Fonseca o Metical não está ligado a falta de ética, de moral, enfim, à falta de educação. O Metical é uma moeda inocente no mundo do crime!

A fotografia soube fazer o levantamento cultural da cidade de Maputo, espaço do filme. A fotografia é caracterizada ainda por uma camêra participante na narrativa ao assumir um papel descritivo, seja de detalhes que despertam tensão, seja por pormenores de pura poesia imagética. A luz escreve a narrativa do Resgate tanto em ambientes exteriores como interiores oscilando entre o claro e escuro. Nas cenas de interiores, geralmente as personagens são fechadas como que a isolar-lhes com suas dúvidas, inseguranças, angústias e desesperos. É disso exemplo quando Mia, do lado exterior, bate a porta de casa (minuto 01:07:03). Bruno está lá dentro, mas não abre a porta. Ele está lá dentro trancado junto com seus problemas, as paredes, a pouca luz e as sombras lhe oprimindo.

A música dirigida por Milton Gulli e Nandele Maguni foi justa para o drama e emoções de cada cena.

Do ponto de vista de conteúdo Resgate é um filme urbano que apela à revolta pelas politicas públicas que impossibilitam a segurança humana: falta de oportunidades de formação, falta de emprego, falta habitação de qualidade, falta de justiça social, o que deixa os jovens como o Bruno sem alternativas em relação à fantasia da vida fácil proporcionado pelo mundo dos dólares, do crime.

Uma palavra de apreço vai para o elenco que soube viver os dilemas das personagens, suas viagens dramáticas e psicológicas. Arlete Bombe, interpretando Mia, foi enorme nesse aspecto. Uma vénia para ela. Uma vénia também para o produtor que soube apostar numa história e trabalhou para possibilitar que ela chegasse às telas!

Resgate na Netflix

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