PUBLICIDADE EXPLÍCITA NOS VIDEOCLIPES DOS NOSSOS CANTORES MOÇAMBICANOS

Por: Bernardino Tomo

Em jeito de reforço ao artigo intitulado a “Febre” de Gucci, Moët & Chandon e Range Rover, no qual eu criticava a ostentação de marcas internacionais, por parte de alguns artistas e figuras públicas nacionais, o presente texto focaliza outro ângulo de abordagem do mesmo assunto que visa descrever o merchandising que se verifica nos videoclipes dos nossos artistas.

Antigamente, a maior parte dos videoclipes serviam apenas para mostrar o conteúdo musical e a criatividade dos artistas. Nos dias que correm, os videoclipes transformaram-se em plataformas de propaganda explícita. A inserção de publicidades nos videoclipes pressupõe muito investimento e permite que o consumidor estabeleça um relacionamento emocional com a marca e o seu ídolo (cantor).

Por exemplo, no mercado internacional, a norte-americana Stefani Germanotta, mais conhecida por Lady Gaga fez uma propaganda, num dos vídeos (ao vivo) do single “Telephone”, ao exibir um telemóvel da Virgin Mobile (uma marca da operadora de origem britânica). Outro caso nota-se no vídeo da Atlantic de Billionaire, música de sucesso de Travie McCoy que foi interpretada por Bruno Mars, que inclui uma propaganda de um Mini Cooper (automóvel de origem inglesa, cuja marca “Mini” é subsidiária do grupo alemão BMW).  Nos dois casos, as marcas aumentaram o volume de venda e os artistas também facturam muito.

As grandes marcas “exploram” a imagem do artista porque acreditam que a partir de videoclipes (que passam nas televisões) é possível massificar os gostos e desejos do público. É evidente que as publicidades invadiram os videoclipes (ferramentas poderosas que mexem com os nossos cérebros através de emoção e gratificação).

Não é possível falar de publicidade, meios de comunicação social e seus produtos sem citar um dos expoentes da Escola de Frankfurt, o alemão Theodor Adorno, o precursor do conceito da Indústria Cultural. No seu entender, os veículos de comunicação de massa (com destaque para televisão) firmaram as bases para massificação da cultura (produtos em série para que sejam admirados por um grande número de pessoas).

Para Theodor (filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor), o progresso de dominação da tecnologia fez do homem uma vítima/um escravo, um mero instrumento de trabalho e de consumo, isto é, transformou o homem em um objecto. Portanto, na Indústria Cultural os consumidores não se preocupam em raciocinar de forma diferenciada porque são alienados com o sistema de massificação. A Indústria Cultural “impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”, sublinha o estudioso.

Assim, mediante o merchandising (palavra de origem inglesa que significa mercadoria, promoção de produto para ser consumido), o público dificilmente percebe-se até que ponto está sujeito à publicidade. No contexto nacional, existem vários casos de merchandising que circulam nos videoclipes. No vídeo “Poko a Poko Sai Muito” (lançado em 2015), pertencente ao grupo New Joint, nota-se uma propaganda da cerveja 2M, exibe-se a garrafa e pronuncia-se o slogan da marca em causa. Quero acreditar que a 2M aumentou o volume de venda, visto que, o vídeo foi lançado no verão e nas vésperas do fim-do-ano. Ainda no rol de publicidade de bebida, no vídeo da “Nhate”, da cantora Nayla, há um cenário de garrafas e anúncios da 2M.

Outro caso verifica-se no vídeo intitulado Nitiketelile, do músico Mr. Bow, no qual nota-se uma viatura de marca Rolls-Royce (considerada sinónimo de qualidade e alto padrão de conforto). Não consigo perceber se a marca patrocinou o tal vídeo ou não, provavelmente, é uma viatura alugada/emprestada.

O Bander, Dygo e Mr. Bow, no vídeo “Original” e a cantora Tima no novo vídeo intitulado “Isabela”, promovem as marcas de Mercedes-Benz, Adidas e Calvin Klein. Fico triste por saber que o produtor/editor do vídeo de Lloyd Kappas intitulado “Casamento” que conta com a participação dos antigos pombinhos, Mistake e Maura, deixou passar as propagandas da Coca-cola, Vodacom (M-pesa) e Mcel.

Caros artistas! Deixem de ser dorminhocos. Nos outros cantos do mundo, a inserção de publicidade nos videoclipes rende muita fortuna. Evitem gravar vídeos em locais “minados” de produtos publicitários sem que haja uma negociação com as respectivas empresas de marcas. Há artistas que solicitam roupas e calçados, em algumas lojas, somente para a gravação de vídoeclipes. Não é este tipo de parceria que se deve firmar. Devem ir mais longe, ganhar dinheiro com a promoção de uma marca.

Infelizmente, no nosso País ainda não é possível determinar a percentagem do valor que se investe na inserção de publicidade de produtos em videoclipes e nem se quer há estudos sobre o relacionamento entre marcas e produtores de videoclipes e nem evidências de futuras parcerias de sucesso.

Será que a Inspecção Nacional de Actividades Económicas (INAE) em parceria com Ministério da Cultura e Turismo (MICULTUR) vão controlar as publicidades que passam nos videoclipes? Neste País espera-se tudo.

As imagens que acompanham o presente texto ilustram alguns casos de publicidades que circulam nos videoclipes nacionais.

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