O Comboio de dois sabores contrastantes

O título do filme liga dois elementos contrastantes: sal e açúcar. A narrativa liga fios de estórias contrastadas pelo doce e o amargo. O roteiro foi construído de forma que o comboio é apresentado como personagem principal da trama. É o comboio que enfrenta obstáculos e os supera (minas, linha férrea vandalizada e ataques armados) durante a viagem, é o comboio que triunfa no final chegando ao destino exibindo um troféu, que é o cadáver do comandante Macaco, figura que representa a liderança dos bandidos armados. Os personagens humanos são meros adjuvantes do comboio e têm a função de viver o lado emocional da narrativa.

O comboio, para além de ser personagem é também um espaço onde estórias de vida se cruzam entre o doce e o amargo numa viagem com destino incerto. O lado doce da vida é representado pela personagem Taiar (Matamba Joaquim) ao longo da viagem ao exaltar os mais altos valores humanos e construir uma relação de amor com a enfermeira (Melanie Rafael), o parto da Amélia (Hermelinda Simela) que procura simbolizar a esperança num futuro em que a guerra seria apenas uma memória vaga e distante; o lado amargo é personificado em tenente Salomão ou comandante Sete Maneiras que desvalorizam a vida humana. Falando de actores, salva de palmas vão para Victor Raposo por uma representação gigante, fabulosa, genial; Melanie Rafael por ter feito de suas representações uma arte, e Sabina Fonseca que empresta naturalidade à sua atuação.

Comboio de Sal e Açúcar é mais uma longa metragem dum realizador da geração Kuxakanema. É um filme que usa cores mortas ou frias e ambientes que alternam entre o claro e o escuro. Tem sua excelência na fotografia, direção de arte e no roteiro. Contudo, não investiu na direção musical, a montagem (que oscilou entre a montagem narrativa e montagem de correspondência) podia ser melhor pois nota-se certos saltos em alguns planos, a direção de actores é medíocre e a figuração é má. Gostávamos de dissertar mais para explicar com detalhe as nossas conclusões, mas barreiras à crítica revelaram-se por não estar sediada em Moçambique nenhuma das produtoras do filme.

Por exemplo, procuramos a distribuidora Lusomundo e o realizador para acesso privado ao filme para assim procedermos a uma análise pormenorizada e fundamentada, o que redundou num fracasso.
Cientes que certa crítica internacional compara Comboio de Sal e Açucar a Apocalipse Now (1979), nós o comparamos ao filme O Tempo dos Leopardos (1985), a primeira longa metragem nacional, para dizer que não o supera em muitos aspectos.
Se é um grande filme? Você mesmo deve conferir.

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