Gorowane com vídeo clip artisticamente minimalista

No álbum Kukavata a associação Olhar Artístico extraiu a música Mussakazi participada também por DJ Ardiles para produzir o vídeo-clip recentemente estreado nas televisões nacionais.
O vídeo clip é de uma simplicidade interessante e apimentada com certo humor que nos é trazido pelos corpos que se contorcem para dançar desajeitadamente.
Do ponto de vista de conteúdo o vídeo tem como mérito o facto de ligar os Gorowane às massas populares ou seja, revitaliza a relação da banda com o público, uma vez que o grupo era visto como estando ligado à elite, fugindo assim da sua própria génese que lhes valeu a alcunha de Bons Rapazes, ainda na década 80.

Esta ligação é conseguida através de personagens de vários estratos sociais, localizados em diversos espaços da cidade de Maputo, dançando.
É apreciável no vídeo a composição das imagens que fazem lembrar a regra de Hitchicoc e diversos filmes seus ou ainda o realizador Yasujiro Ozu no filme A rotina Tem Seu Encanto, onde na maioria dos planos o objecto central da imagem é enquadrada na zona central, mandando assim passear Leonardo da Vinc com a sua regra dos três terços.

Especificamente, do ponto de vista técnico, é um vídeo clip que nos trás imagens padronizadas em clara, linear e natural. Luís Nogueira (2010) define imagem linear aquela que tende a ganhar clareza nítida ao nível da percepção como se tudo devesse ser iluminado de modo a favorecer o visionamento do espectador tanto em profundidade como em detalhe; e linear como sendo a sucessão continua das imagens como uma forma de discurso em busca de uma forma e de um sentido, e define a imagem natural como aquela que devido à sua natureza mecânica tende a ser realista. Estas imagens foram conseguidas com recurso à luz natural em exteriores usando lentes grande angular, geralmente em planos de conjunto, com certa tendência de centralização da imagem.

Posta esta consideração vale agora dizer que o vídeo clip levanta uma velha questão teórica para fundamentar a criação artística. Se a arte deve ser a perfeita imitação da natureza como defendia Emanuel Kant ou se a arte deve ser a reflexão da ideia na matéria como defendia Hegel. A realização do vídeo clip optou pelo caminho de Kant. Por esta consequência falta no vídeo clip a abstração que poderia ser fundamentada pela plasticidade da imagem. A poesia da imagem! Poesia como ideia pura ou suprema. De facto, cada plano do vídeo não é rico de forma independente. A riqueza começa a aparecer com a montagem, que é linear.
Como conclusão dizer que o vídeo não é ousado artisticamente. Em suma, exigia-se mais.

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