Canto Suburbano

Estas são as primeiras de muitas linhas que irão preencher esta esquina da Revista Cara Cultura, à qual iremos chamar, precisamente, “Canto Suburbano”. Aqui iremos debruçarmo-nos sobre vários aspectos que compõem a paisagem cultural típica das cidades e arredores, com mais ênfase para o Hip Hop.

Este movimento cultural, do qual o Rap é a vertente musical, nasceu no bairro nova-iorquino de Bronx, nos Estados Unidos da América, no final da década de 1960. Neste local, tal como noutros bairros pobres habitados maioritariamente por negros e latinos, observava-se, nessa época, um cenário que revelava uma situação de calamidade pública, onde o desemprego, o crime, a violência, as drogas predominavam. Impelidos por este cenário, para ganharem reconhecimento dentre os demais, os jovens organizavam-se em gangues que tinham como propósito demarcar território e alimentar conflitos com outras gangues, ou seja, formavam grupos de enfrentamento para fazer face a outros grupos. Em busca de alternativas de vida, jovens artistas da comunidade começaram a promover festas comunitárias estimulando diferentes expressões artísticas, por meio de batalhas, envolvendo a dança (Break/B-Boying), a rima (Rap/MCing), a performance em gira-discos (DJing) e o grafite (Graffiti). Deste modo, os confrontos que antes eram feitos com recurso à violência passaram a ser feitos através de competições artísticas.

Muitas dessas expressões artísticas revelavam, inspirando-se no quotidiano, a precariedade social vivida nesses bairros. Sendo o Rap a faceta mais visível dessas expressões, o retrato de tudo quanto havia – e que ainda há – de negativo no seio das comunidades pobres locais acontecia de maneira mais evidente no seio deste género musical.

É importante referir que ainda que o propósito do Hip Hop no geral e do Rap em particular, fosse consciencializar as pessoas, as primeiras composições deste género apresentavam basicamente conteúdos alegres e festivos. Dito doutro modo, o real objetivo do Hip Hop tardou um pouco a chegar às letras musicais.

A canção “The message” do grupo Grandmaster Flash and the Furious Five, lançada como single pela Sugar Hill Records em 01 de Julho de 1982 e mais tarde incluída no primeiro álbum de estúdio do grupo, “The Message” – é tida como a primeira canção Hip-Hop de intervenção social e que levou a música Rap das festas para as plataformas sociais mais tarde desenvolvidas por grupos como Public Enemy, NWA, Rage Against the Machine e tantos outros pelo mundo fora.

Com efeito, quando este estilo musical chegou a Moçambique, nos finais da década de 80, os ecos dessa tendência fizeram-se sentir por cá também.

O Hip Hop entrou, primeiro, como simples pretexto para diversão. Daí surgem as sessões de shows de dança durante os intervalos das competições de natação que tomavam lugar no recinto da Piscina do Maxaquene (Velhos Colonos), lá para os anos 1985 e, na mesma altura, os shows de Funk/RnB realizados nos pavilhões de basquete e, um pouco mais tarde, as festas dançantes realizadas em discotecas como Búzio, Favo e Sanzala, onde curtia-se Funk e Rap Old School, ao som de DJs como Zema, Zé Luís ou M’Naite Chissano, também conhecido por Nehaze.

Tal como no contexto norte-americano, depois das festas veio a consciência. Aquela que é considerada a primeira música Rap gravada em solo nacional, “Temos que ir à escola” do cantor, compositor e multi-instrumentista zambeziano Eduardo Carimo, é de cariz. Nesse seu emblemático tema, gravado em 1987, Carimo exorta(va) os jovens a irem à escola, o que sugere que ele, na qualidade de músico e intervencionista social, via a escola como forma eficaz de combater a pobreza, fosse ela mental ou material, aliás, como ele mesmo diz “quem nunca foi à escola é marginal”:

“Mas há uma outra camada anti-social/ Passa toda sua vida sendo marginal/ Leva todo seu tempo a ser bundovaga (?)/ Vive toda sua vida sem o pé na escolar/ Mas que tipo de jovem que nunca foi a escola?/ Se nunca foi à escola é marginal/ Temos que ir à escolar” – Eduardo Carimo

E assim, estava lançada a primeira pedra para a edificação de uma das manifestações culturais que mais jovens agrega na actualidade.

 

Paz, amor, união e diversão!

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